Guerras de plâncton: O percurso de uma estudante para resolver o florescimentos de algas prejudiciais

Guerras de plâncton: O percurso de uma estudante para resolver o florescimentos de algas prejudiciais

E se pudéssemos usar animais minúsculos para comer as algas prejudiciais? Se assim fosse, que genótipo seria o mais adequado para isso? Foi esse o tema do projeto de Annabelle M. Rayson, vencedor do Prémio Jovem da Água de Estocolmo 2022. Descubra o que a inspirou para levar a cabo esta investigação.

Ao crescer numa cidade pequena no sudoeste de Ontário, no Canadá, Rayson sempre teve uma relação próxima com os Grandes Lagos. O seu pai é pescador comercial e a mãe foi professora de biologia. Não é de admirar que o seu projeto vencedor se focasse num problema biológico próximo: os florescimentos de algas prejudiciais.
 
Há dois anos, Rayson decidiu encontrar uma potencial solução para este problema usando zooplâncton (animais aquáticos minúsculos) para comerem as algas. No seu primeiro projeto, “Munching Madness” (Frenesim de Mastigação), descobriu que um tipo de zooplâncton chamado Daphnia magna é o ideal para a tarefa. No seu último projeto vencedor, “Plankton Wars,” (Guerras de Plâncton), investigou qual o genótipo da Daphnia magna que teria o melhor desempenho. Pediu equipamento emprestado às universidades e depois passou meses em trabalho árduo.
 
A Making Waves sentou-se com Annabelle Rayson na World Water Week (Semana Mundial da Água) para saber mais sobre o seu trabalho e a sua paixão pelos problemas da água.

Como se sente por vencer o Prémio Jovem da Água de Estocolmo?

Sinto-me totalmente honrada, especialmente por representar o Canadá e trazer uma vitória para casa, e estar lá com todos os meus colegas finalistas que também têm projetos fantásticos. Sinto-me honrada por representar as raparigas em STEM de todo o mundo, especialmente as pessoas interessadas em ciência para comunidades mais pequenas que podem não ter acesso a grandes laboratórios. Por exemplo, a minha investigação de projeto foi feita inteiramente na minha cave.

Começou a competir em feiras de ciência no quarto ano. O que a fez interessar-se por ciências?

No local onde vivo, no sudoeste de Ontário, estou rodeada pelos Grandes Lagos, por isso sempre fui apaixonada pelo ambiente e pela sustentabilidade. No quarto ano recebi um incentivo dos meus pais para participar numa feira de ciência. Eu era muito tímida e sossegada – não gostava de falar em público nem de falar com pessoas de forma alguma. Por isso, a pequena Annabelle de nove anos de idade não ficou contente com a ideia de participar na feira de ciência.

Mas continuei a voltar, ano após ano, porque é uma oportunidade para canalizar a nossa curiosidade e tentar resolver problemas e questões pelas quais somos apaixonados. É-nos dada liberdade para sermos criativos, que geralmente não era o caso na minha escola básica, ou no nosso sistema de ensino em geral. Através das feiras de ciência conheci alguns dos meus melhores amigos e as pessoas mais fantásticas e incríveis e agora, já viajei oficialmente pelo mundo para isso.

Como é que as florescências de algas prejudiciais afetaram o trabalho do seu pai enquanto pescador?

Os florescimentos de algas prejudiciais são um problema para muitos pescadores em toda a zona sudoeste de Ontário, especificamente no Lago Erie. Em algumas alturas do ano, ninguém pode pescar ou nadar em determinadas áreas e não podemos usar a água para beber.

O que acontece é que há crescimentos massivos de algas, onde se podem formar toxinas, que tornam a água imprópria. Outra coisa é que quando as algas se decompõem, estas absorvem todo o oxigénio do lago, o que faz com que qualquer espécie que não tenha morrido devido às toxinas morra devido à falta de oxigénio.

Consegue descrever o que é a Daphnia magna? Pode ser usada em aquários para limpar as algas, não é?

Claro que sim. A Daphnia magna é um tipo de zooplâncton de água doce. Os zooplâncton são organismos aquáticos minúsculos. Mais especificamente, a Daphnia magna é um organismo filtrador, por isso à medida que nada através da água filtra e alimenta-se de todas as algas. Além disso, é uma espécie chave. Isso significa que é essencial para a vida aquática nos ecossistemas de água doce.

Os ecossistemas de água doce são muito dinâmicos. Os poluentes e outros fatores podem ter impacto nas florescências de algas tal como a própria Daphnia, por isso eu queria testar que genótipo da Daphnia conseguiria tratar melhor as florescências de algas prejudiciais quando exposto a estas coisas. 

Escreveu que a Daphnia magna poderia ser usada para biomanipulação. Isso já foi feito antes?

Não, o conceito de biomanipulação de zooplâncton já foi discutido, mas ninguém sabe que espécie é a melhor. Foi daqui que adveio a descoberta do meu primeiro projeto e agora, com o meu mais recente projeto, sabemos que tipo de genótipo é o mais eficiente.

No Canadá, se começarmos a dizer a palavra “biomanipulação” nos Grandes Lagos, toda a gente fica alarmada, apesar de fazermos a biomanipulação dos nossos níveis de salmão para garantir que temos uma quantidade suficiente de salmão. É algo que poderia ser feito com a Daphnia magna, mas seria necessária muito mais investigação e muitas autorizações governamentais, visto que os Grandes Lagos estão bastante protegidos.

Porque acha que é importante envolver os jovens nos problemas da água?​?

A água é um recurso vital, porém finito. É essencial para a vida e a biodiversidade. Sem água, na verdade não temos nada. Os jovens têm de se envolver com as questões da água porque este é o nosso futuro, este é o nosso planeta. Temos de olhar para o mundo que estamos a tentar criar e não podemos viver neste mundo sem água. Acho que é importante que os jovens se envolvam não só porque é muito interessante, e porque há tantos caminhos que podemos escolher, mas também porque é vital para a nossa sobrevivência e sucesso.

Com tantos desafios relacionados com a água no mundo, o que a inspira a crer que seremos capazes de os resolver?

Eu, pessoalmente, vivo segundo a afirmação de Albert Einstein, “O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os observam e não fazem nada.” E o que me inspira é o facto de as pessoas estarem a ficar cada vez mais conscientes dos problemas da água. Muitas pessoas tomaram a água por garantida, mas especialmente com as alterações climáticas, as pessoas começam a perceber que precisamos de fazer algo.

O que também me dá esperança é falar com outros jovens. Ao participar no Prémio Jovem da Água de Estocolmo, conheci 58 alunos fenomenais com idade próxima da minha, de todos os cantos do mundo. Ver a sua paixão e investigação e a sua motivação para fazer do mundo um lugar melhor, é isso. São os meus colegas finalistas do Prémio Jovem da Água de Estocolmo que me dão esperança.

Saber mais sobre programas para jovens da Xylem

A Xylem é um parceiro fundador do Prémio Jovem da Água de Estocolmo, criado pelo Stockholm International Water Institute em 1997. Para o prémio, alunos com idades entre os 15 e os 20 desenvolvem projetos de investigação para ajudar a resolver os principais desafios da água.

Saiba como a Xylem está a empoderar líderes estudantis para impulsionar mudanças reais no setor da água com o nosso programa Xylem Ignite.